domingo, 4 de janeiro de 2009


Algumas diferenças entre a Psicologia e a Psicanálise

Este artigo é fruto de estudos em Psicanálise e, mais especificamente, de esforços em mostrar que nem todos os psicólogos saberão discutir a Psicanálise; assim como nem todos os psicanalistas têm a Psicologia como ponto de partida. Algumas particularidades devem ser observadas: uma delas é a de levar o aluno a compreender a constituição de uma subjetividade, subjacente aos sintomas apresentados. Sendo assim, esta é uma reflexão sem pretensão de esgotar ou abranger todos os aspectos da Psicologia ou da Psicanálise. Da mesma maneira, não se busca aqui explicar todos os aspectos abordados pelas correntes citadas, remetendo o leitor, ao final, a uma série de referências que poderão auxiliar os iniciantes nesta discussão. Para quem não está envolvido com estudos sobre o psiquismo, a Psicologia e a Psicanálise parecem disciplinas afins, até mesmo idênticas. No entanto, é necessário delimitar algumas nuances, para que se bem utilizem as possibilidades de uma e de outra. Há quem diga que é tudo a mesma coisa. De início, e já complicando, temos que nem a Psicologia nem a Psicanálise poderiam ser tratadas como unas. Há, na Psicologia, muitas Psicologias; e o mesmo acontece com a Psicanálise. Dentre as muitas Psicologias, trataremos daquela que está mais próxima de um raciocínio positivista, a que busca verificar os comportamentos humanos por meio de experimentos, por ser esta a que mais se diferencia da Psicanálise. Como dito, são muitas as Psicologias e muitas delas têm propostas de compreensão do psiquismo que fazem uso da Psicanálise ou discutem o psiquismo como resultado de uma dinâmica psíquica (por exemplo: psicodrama, gestalt, etc.). A partir destas, as diferenças são sutis e difíceis de tratar em um breve artigo. A Psicologia Experimental, por sua vez, apresenta diferenças marcantes e acaba por ser bastante conhecida por pessoas fora da área.1 Os psicólogos podem fazer uso da Psicanálise apenas como um instrumento dentre muitos outros, tal como se vê na análise de alguns testes projetivos. Ou podem começar a praticar uma psicoterapia de base analítica. Ou mesmo fazer referência a apenas um ou outro aspecto na prática terapêutica, quando pressupõem em todas as ações humanas algo de latente ou inconsciente. Por sua vez, a Psicanálise também se faz presente em muitas apresentações, variando-se a corrente de acordo com o enfoque ou com o teórico que desenvolveu esta ou aquela idéia. Como Psicanálise, abordaremos mais especificamente as obras freudiana e lacaniana, sem nenhum demérito em relação aos outros teóricos psicanalistas. De maneira geral, a Psicanálise dificilmente se aproxima da Psicologia como possibilidade de contribuição. Os psicanalistas, pelo contrário, parecem buscar justamente o que diferencia as duas disciplinas, fazendo referência à Psicologia apenas para afastá-la e não para conhecê-la. Apresentaremos cinco pontos de diferenças entre a Psicologia e a Psicanálise, definidos didaticamente, já que todos se relacionam: • o eixo (aquilo que norteia o raciocínio teórico da disciplina, o objeto de estudo); • a etiologia (como são estabelecidas as propostas teóricas acerca da etiologia dos sintomas); • o patológico (as possíveis classificações psicopatológicas); • a ética (e a direção da cura); • o papel do clínico. O eixo A Psicologia tem como objeto de estudo o comportamento e a manifestação sintomática, sendo isto mais importante que quaisquer sentidos que possam ser construídos a partir dos sintomas apresentados. É a partir do tipo de comportamento apresentado que se pode chegar a uma classificação. Por exemplo, quando temos uma pessoa que costuma lavar as mãos, isto é tido como um comportamento compulsivo, que deve ser extinto. Pode-se lançar mão da Psiquiatria, na recomendação de remédios próprios para este quadro ou mesmo de técnicas de dessensibilização e controle do comportamento. O motivo pelo qual o comportamento se deu pode até ser pensado ou apresentado pela própria pessoa, mas estará sujeito às condições de um trabalho que leve à remissão dos sintomas. Como eixo, então, teríamos o binômio saúde/doença ou mesmo normalidade/anormalidade, e o sintoma se refere ao momento doente e a busca terapêutica deve ser em direção à saúde, logo, à extinção dos sintomas ou do comportamento anormal. Na Psicanálise, o eixo é a trama imaginária construída por cada pessoa, diante das experiências de frustração e da castração (tanto no sentido imaginário como no sentido dos limites aos quais todos estamos submetidos). Cada um de nós constrói uma rede de fantasias, de impressões particulares acerca do que vive. É baseando-se nesta rede, tecida muito precocemente em nossa infância, que nos conduzimos em situações novas e mesmo nos direcionamos para este ou aquele lugar. Poder-se-ia compreender esta trama imaginária como um padrão de relacionamentos, algo que pode ser modificado simplesmente por novos aprendizados. No entanto, é mais que isso, é uma forma de funcionamento que se impõe aos acontecimentos cotidianos buscando tramar o mesmo, repetitivamente. O sintoma é, pois, um sinal dessa trama imaginária, é uma das peças de um quebra-cabeça muito maior, a ser montado no processo terapêutico. Um sentido deve ser construído, à medida que o quebra-cabeça se monta, e, se isto levar à remissão dos sintomas, pode ser uma vantagem ou uma desvantagem. Se o sintoma é um sinal – a peça que revela a existência de um quadro maior –, seu desaparecimento pode significar a perda da bússola deste quadro. Assim, estabelecer uma classificação se torna muito mais difícil, já que cada pessoa traz uma composição diferente. Existe, porém, uma delimitação dos quadros clínicos pela sua forma de funcionamento. A etiologia A Psicologia se volta para as causas de uma patologia como imediatamente desencadeadoras dos sintomas. Mesmo que se coloque uma proposta “multifatorial”, envolvendo ambiente, personalidade e mesmo a genética, todos seriam tomados como agentes do sintoma. Decorrem daí estudos sobre fatores de risco para este ou aquele quadro, assim como a importância de elementos determinantes para o acontecimento de uma patologia, além de propostas de prevenção, pela eliminação dos fatores de risco. A Psicanálise toma o sujeito como ponto de partida e a construção do próprio psiquismo como uma estratégia que já é ele mesmo (o próprio psiquismo). Como o sintoma é menos importante que o sentido que esconde, vê-se o trabalho do sujeito como algo a ser considerado. A etiologia está no próprio sujeito, na interação que estabelece com todos os outros fatores – ambiente, personalidade e condições físicas de existência – e deve ser repensada a cada sujeito. Não há, pois, como prevenir, a não ser que se pense isso a cada sujeito. Assim, a Psicologia, por vezes, faz uso das classificações psiquiátricas, que se baseiam na sintomatologia e, assim, busca a supressão de tais sintomas. Já na Psicanálise, muitas vezes o sintoma deve ser preservado, desde que devidamente administrado, para que, a partir dele, possa-se fazer emergir o sujeito que vai trabalhar em busca de sua própria cura.

Texto adaptado do artigo de Roberta Ecleide Ol. Gomes-Kelly, Mestre em Psicologia Clínica (Puccamp); doutora em Psicologia Clínica (PUC-SP).

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